Memória contínua, saudade contínua, sede contínua
4 de novembro de 2009 at 14:15 Deixe um comentário
Deus é inesquecível. Mesmo que se faça um grande esforço para retirá-lo da memória, ninguém o consegue por completo. Mesmo que os especialistas da não-existência de Deus trabalhem nessa direção, a lembrança de Deus continua nos lugares mais escondidos da mente humana. Os descrentes, os céticos, os agnósticos e os ateus já fizeram discursos, já escreveram livros, já formularam e desenvolveram teorias pondo em dúvida ou negando abertamente a existência de um Ser superior e Criador. Os crentes em Deus, os adoradores de Deus, por sua vez, já mancharam para sempre o nome de Deus até não mais poder. Todavia, Deus continua inesquecível.
De Deus não se tem apenas uma memória obrigatória e fria, uma memória filosófica e metafísica. Existe uma espécie de saudade de Deus, que nada mais é do que uma lembrança nostálgica, remota, imprecisa, às vezes incômoda e, ao mesmo tempo, gostosa, edificante e atrativa. É a saudade de alguém que nunca vimos, mas existe, de alguém que tem muito a ver conosco, embora não o conheçamos nem de ver, nem de ouvir, nem de tocar.
A memória inapagável de Deus e a saudade insistente de Deus produzem um anseio muito forte por Ele, que metaforicamente se chama de “sede de Deus”. O poeta sacro registrou essa sensação:
“Como a corça anseia por águas correntes, a minha alma anseia por ti, ó Deus. A minha alma tem sede de Deus” (Sl 42.1,2).
A memória, a saudade e a sede de Deus não são tão misteriosas como se pensa. Por um lado, o homem é muito mais do que um amontoado de ossos, carne, nervos e pele, e muito mais do que um laboratório ambulante, de complicadas elaborações, como o sistema digestivo, o sistema circulatório, o sistema reprodutor etc. Ele é a coroa da criação. Foi feito à parte e depois de tudo para “glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”, como resumiu a Assembléia de Westminster (1643-1646). Por outro lado, Deus não é uma força, um “grande poder”, um meteorito caído do céu (At 19.35), muito menos uma peça de cerâmica, madeira, bronze, prata e ouro. Deus é uma pessoa, que pensa, ama e age.
A memória contínua, a saudade contínua e a sede contínua recolocam o ser humano na órbita de Deus. E ele não sossega enquanto não ocupa a posição à qual foi destinado. Daí a mais curta e mais conhecida confissão humana a favor desse entrosamento-mor, cunhada por Agostinho no primeiro parágrafo de suas Confissões, escritas nos últimos quatro anos do século quarto: “Inquieto está nosso coração enquanto não repousa em Deus”.
Fonte: Revista Ultimato
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