O Apóstolo dos pés sangrentos – capítulo 5
15 de outubro de 2009 at 17:36 Deixe um comentário
SADU SUNDAR SINGH
Um jovem hindu deserdado e sem casta, maldito no lar de seus pais e na aldeia em que nascera, caminhava pela estrada que de Simla se dirige a Sabatu, com a alma inundada de alegria. Paradoxal alegria, à qual já se mesclava preocupação gravíssima: o batismo, se lhe resolvera os problemas espirituais, selando definitivamente sua consagração a Cristo, não lhe dava contudo orientação sobre o rumo a imprimir à vida. Não lhe seria possível continuar vivendo da boa vontade dos missionários. Que faria?
Todas as suas forças e tendências se dirigiam para um rumo: a pregação do Evangelho. Precisava remir o tempo perdido, desfazer os males que causara aos pregadores de Rampur. Mas pregar como? Passar anos encerrado no Seminário, receber lições de Teologia, de Grego, de Latim, assimilar por processo exaustivo e mecânico a piedade de outros homens; pastorear depois uma igreja, viver preso à paróquia e a seus pequeninos problemas gerados pela eterna mesquinharia do homem; esgotar-se nas intermináveis e nem sempre edificantes discussões e atitudes de Concílios, para depois, e uma vez mais, afundar no lago parado da rotina paroquial? Fazer cuidadosas distinções dogmáticas, demonstrar onde estava o erro dos presbiterianos, onde o dos metodistas, e afirmar vitoriosa e invariavelmente que o Caminho, a Verdade e a Vida residiam no seio da Igreja da Inglaterra, que o batizara? E a qual das correntes que nela se digladiavam haveria ele de se filiar?
Engolfado em tais pensamentos, à sombra fresca dos pinheirais de Sabatu, seus olhos caíam muitas vezes nas neves que faziam fundo à paisagem. Himalaia! As águas que ali nasciam, na neve permanente, rasgavam na pedra da montanha o leito por onde correriam. Dispensavam concurso humano. Conseguisse ele manter sempre a íntima união com Cristo que agora possuía e poderia dispensar a organização eclesiástica e os canais com que ela orientava o rumo da piedade dos fiéis. Mesmo porque a europeização daÍndia era ingrata tarefa que a igreja evangélica indiana parecia apostada em levar a cabo – e isto lhe repugnava. Fortes laços emocionais o prendiam à terra onde repousava sua mãe, e aos costumes da infância. Não se convertera à civilização ocidental, mas ao Cristo Universal.
“Um dia eu vi, na Rajputana, um brâmane de alta casta que corria para a estação. O calor era tanto que, ao atingir a plataforma, caiu. O chefe da estação era anglo-hindu; desejoso de auxiliá-lo trouxe uma xícara branca com água. Percebia-se que o homem estava sedento, mas não quis beber. – Não posso tomar água aí; prefiro morrer. – Mas ninguém lhe pede que beba a xícara, observou alguém. Tome a água. – Nunca hei de desrespeitar as regras de minha casta. Antes a morte. Quando trouxeram água na vasilha de cobre, bebeu sofregamente. ‘Dá-se o mesmo com a Água Viva. Os hindus precisam dela, mas dispensam a xícara européia.’”
Mas como criar uma vasilha hindu para a nova bebida? Nova? Não! Era a bebida eterna! As formas de devoção da Índia a buscavam, tacteantes e desesperadas. Bastava tomar a melhor dessas formas de devoção e enchê-la do líquido cristalino e refrigerante.
Trinta e três dias após o batismo, vendeu como pôde os escassos objetos que possuía, comprou na aldeia a roupa amarela de sadu, envergou-a e, descalço, levando em uma das mãos o Novo Testamento em urdu, tomou o rumo do Sul.
Seria, desse dia em diante, O Sadu.
Sadu, palavra sânscrita que significa reto, adotada para designar uma classe especial de religiosos, veio a ter o sentido de puro, santo. É quem se consagra inteiramente à religião, abandonando para sempre qualquer veleidade mundana. Não são raros naÍndia exemplos de homens que, após cumprir o que lhes parecia missão terrena – criar os filhos, servir o país, abandonam família, bens, cargos e desaparecem num recesso de montanha, onde passam a habitar qualquer gruta, imersos em meditação. O Purum Baghat, de Kipling, é real. São os saniasis. O que talvez os poderia distinguir dos sadus é o fato de ser toda a vida dos últimos consagrada à religião e não a parte final apenas.
Vestidos com a roupa cor de açafrão que tão facilmente se distingue, caminham geralmente descalços, sem pouso fixo. Nas aldeias e nas cidades todos têm prazer em dar-lhes uma escudela de comida, um leito de palhas, uma hora de palestra. Seus conselhos são respeitados, suas maldições temidas. O viajante que percorrer as margens dos rios sagrados, freqüentemente encontrará esses santos imersos em meditação ou ocupados flagelando-se pelos mais engenhosos processos, ou rezando com monotonia.
Tão intimamente relacionada com o paganismo hindu estava a vida do sadu, que era necessário mais que simples originalidade para adotá-la e pregar o cristianismo. A Igreja receberia tal idéia com escândalo e desagrado; e os mesmos indianos que o acolhessem, ao verificarem que o Santo-Homem era apenas um maldito cristão de casca amarela, possivelmente se vingariam ferozmente do logro.
Mas Sundar Singh não estava à procura de um artifício: queria ser sadu e não apenas vestir-se de sadu. Possuiria a mentalidade do sadu, com alma de cristão.
Dias depois penetrava em Rampur. Junto ao velho bazar que o vira apedrejando pregadores, cantou com voz brilhante um hino cristão. E quando o povo, curioso, se aglomerou, contou-lhe a transformação que se operara em sua vida. Por que não se faziam eles também cristãos? Por que não liam a Bíblia? Jesus Cristo estava vivo, e era Deus! O único Deus!
Deixaram-no em paz. Alguns intrigados, outros impressionados. Um deles foi chamar Sher Singh, mas quando este chegou já o filho desaparecera, rumo à aldeia seguinte.
Na estrada poeirenta e ardente o sardar apenas distinguiu as marcas dos pés descalços de seu filho. Era fácil conhecê-las, porque estranhos sinais escuros as identificavam, no labirinto de pegadas impressas no pó. Olhou com cuidado: os pés de Sundar Singh sangravam. Lá estava o rastro negro, a denunciá-lo. Esses pés afeitos à carícia de tapetes caros…
Pensativo, Sher Singh voltou ao casarão, onde vivia solitário como homem órfão da própria alma.
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